Do volume ao valor: estruturando um voluntariado empresarial transformador Artigo Silvia Naccache e Angela Parker
Do volume ao valor: estruturando um voluntariado empresarial transformador
Repensando o Voluntariado Corporativo no Ano Internacional do Voluntariado pelo Desenvolvimento Sustentável (2026)
Artigo de Silvia Naccache (GEVE/Brasil) e Angela Parker (Realized Worth/EUA)
Silvia Naccache é especialista brasileira em voluntariado e co- fundadora do Grupo de Estudos de Voluntariado Empresarial (GEVE), consultora, palestrante e conteudista. Atua junto a empresas e organizações da sociedade civil na estruturação de programas estratégicos de voluntariado que promovem fortalecimento institucional e geração de valor social de longo prazo, conectando a prática brasileira a padrões globais de governança e impacto.
Angela Parker é uma liderança global em estratégia de voluntariado corporativo e co fundadora da Realized Worth. Atua no apoio a empresas multinacionais na estruturação de programas de voluntariado baseado em habilidades, alinhados às prioridades ESG, ao desenvolvimento de lideranças e à geração de impacto social mensurável. Contribui ativamente para o diálogo internacional sobre efetividade do voluntariado e parcerias intersetoriais.

Escrevo este artigo em diálogo com @AngelaParker, a partir de uma relação construída à distância geográfica, mas profundamente conectada pela prática, pela escuta e pelo compromisso com o avanço do voluntariado corporativo no mundo.
Ao longo dos anos, mantivemos trocas constantes sobre pesquisas, experiências, dilemas e oportunidades do voluntariado empresarial como estratégia de engajamento, desenvolvimento de lideranças e impacto social. Tenho profunda admiração pelo trabalho da Angela e pelas publicações da @RealizedWorth, que influenciam organizações em diferentes países.
Por isso, impactada por um de seus textos, sugeri que escrevêssemos juntas este artigo incorporando reflexões e evidências do Brasil — um país com enorme potencial, desafios estruturais e uma trajetória consistente no campo do voluntariado corporativo.
Grata Angela por aceitar o convite! Trouxe os aprendizados do contexto brasileiro, conectando-os às tendências internacionais.
Este diálogo ganha ainda mais significado em 2026, quando o mundo reconhece e celebra o Ano Internacional do Voluntariado pelo Desenvolvimento Sustentável. Estamos juntas também nesse movimento global, refletindo sobre como o voluntariado corporativo pode contribuir de forma estratégica para a Agenda 2030.
No artigo, discutimos a passagem do volume ao valor no voluntariado corporativo, trazendo dados do Brasil e do cenário global:
– Por que medir apenas horas e participação não é suficiente?
– Como estruturar experiências transformadoras para voluntários, empresas e organizações da sociedade civil?
Este artigo é um convite para repensar o voluntariado corporativo não como ação periférica, mas como estratégia central de engajamento, cultura organizacional e geração de valor social.
👉 Convido você a ler o artigo completo e participar dessa reflexão conosco.
Durante décadas, programas de voluntariado corporativo foram avaliados principalmente por métricas quantitativas: número de voluntários, horas dedicadas e quantidade de ações realizadas. Esses indicadores são relevantes. Eles demonstram mobilização, escala e adesão interna. No entanto, são insuficientes para revelar o verdadeiro alcance do voluntariado empresarial.
Medir volume não revela transformação. Não evidencia desenvolvimento de competências, fortalecimento institucional das organizações parceiras, mudança cultural nas empresas ou impacto real nas comunidades. A mensuração baseada exclusivamente em números tende a privilegiar o que é simples de registrar, mas não necessariamente o que é estratégico ou estruturante.
A pergunta central permanece provocativa:
Estamos medindo o que é fácil de contar ou o que realmente importa?
Migrar do volume ao valor exige uma mudança de mentalidade — da contabilização de participação para a compreensão de resultados, aprendizagem e transformação sistêmica. Significa sair da lógica de atividade e avançar para a lógica de impacto.
As Armadilhas do Voluntariado de Ação Isolada
Ações pontuais, desconectadas da estratégia e focadas apenas na entrega imediata tendem a gerar impacto limitado e pouco sustentável. São iniciativas que mobilizam pessoas por um dia, produzem registros fotográficos e relatórios de horas, mas raramente deixam legado estruturante.
Sem alinhamento estratégico, sem escuta ativa das organizações da sociedade civil e sem continuidade, as ações tornam-se eventos isolados. Produzem visibilidade, mas não necessariamente transformação. Muitas vezes, geram mais esforço operacional do que valor social consistente.
Isso não significa desconsiderar a relevância das mobilizações emergenciais em contextos de tragédias, desastres socioambientais, crises humanitárias ou pandemias — nessas situações, a ação rápida e pontual é necessária e pode salvar vidas. O ponto crítico é quando a lógica da excepcionalidade se torna regra e substitui uma estratégia estruturada e contínua de geração de valor social.
O voluntariado corporativo estratégico exige:
- Intencionalidade clara
- Alinhamento com a estratégia corporativa e com a agenda ESG
- Parcerias estruturadas e de médio ou longo prazo
- Objetivos definidos e teoria de mudança consistente
- Avaliação contínua, com indicadores qualitativos e quantitativos
Programas sustentáveis não escolhem um único destinatário de valor. Eles equilibram interesses e constroem benefícios compartilhados com todos os envolvidos. O voluntariado corporativo só se consolida como estratégia e transformador quando cria valor simultaneamente para empresa, voluntário, organização da sociedade civil e comunidade.
Experiências Transformadoras
Para gerar valor real, é necessário estruturar experiências intencionalmente desenhadas para múltiplos públicos.
Para os voluntários, o voluntariado pode ser espaço de desenvolvimento socioemocional, fortalecimento da empatia, ampliação da visão sistêmica e exercício de liderança. Quando bem estruturado, torna-se ambiente de aprendizagem aplicada, capaz de desenvolver competências transferíveis ao contexto profissional.
Para as empresas, o voluntariado é ferramenta estratégica de fortalecimento da cultura organizacional, aumento do engajamento, retenção de talentos e desenvolvimento de lideranças. Conecta propósito individual ao propósito institucional.
Para as organizações da sociedade civil, programas estruturados oferecem acesso a conhecimento técnico, redes de relacionamento, metodologias de gestão e fortalecimento de capacidades institucionais. Não se trata apenas de mão de obra voluntária, mas de transferência de competências e construção de sustentabilidade organizacional.
Nesse contexto, a preparação estruturada das atividades, o acompanhamento durante a execução e os momentos de reflexão posterior não são etapas operacionais secundárias. São mecanismos centrais de aprendizagem, alinhamento e consolidação de impacto. A reflexão qualificada transforma a experiência em desenvolvimento.
O Desafio da Mensuração de Impacto
Medir impacto em ações contínuas, recorrentes e desenvolvidas com parceiros estratégicos é um dos maiores desafios contemporâneos do voluntariado corporativo.
Impacto não se resume a entregas imediatas. Ele envolve:
- Desenvolvimento de capacidades institucionais
- Fortalecimento de redes e ecossistemas.
- Desenvolvimento de lideranças internas
- Sustentabilidade de longo prazo das organizações parceiras
No Brasil, o censo do CBVE- Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial aponta participação média em programas de voluntariado empresariais de cerca de 23% dos colaboradores. O BISC – Benchmarking do Investimento Social Corporativo registra uma taxa média de 25% nas empresas monitoradas.
Dados internacionais apontam cenário semelhante. Pesquisas conduzidas pela CECP- Chief Executives for Corporate Purpose indicam que cerca de 25% dos colaboradores participam de programas de voluntariado corporativo nas empresas analisadas nos Estados Unidos. Estudos da Charities Aid Foundation, por meio do World Giving Index, mostram crescimento consistente do voluntariado global nos últimos anos, embora com variações regionais significativas. Já relatórios da Points of Light reforçam a expansão do voluntariado baseado em habilidades como tendência estratégica internacional.
A escala, portanto, é relevante. A mobilização é expressiva. Mas o desafio estratégico permanece: como transformar participação em impacto sustentável e mensurável?
É necessário evoluir dos relatórios de horas para modelos que integrem indicadores de aprendizagem, fortalecimento institucional e mudança organizacional.
Ferramentas de gestão, validação e reconhecimento
A gestão do voluntariado no Brasil está ancorada em bases jurídicas e contábeis sólidas que conferem segurança institucional e legitimidade estratégica aos programas. A Lei 9.608 estabelece a natureza não remunerada da atividade e a inexistência de vínculo empregatício, garantindo clareza jurídica para organizações e voluntários. Esse marco normativo não apenas protege as partes envolvidas, mas também estrutura a governança das iniciativas.
No campo contábil, a ITG 2002 (R1/2015) determina que o trabalho voluntário seja reconhecido pelo valor justo da prestação de serviço, como se representasse um desembolso financeiro equivalente. Essa diretriz não é meramente técnica: ela chancela o voluntariado como recurso econômico mensurável, incorporando-o às demonstrações contábeis e ampliando sua visibilidade como componente do investimento social privado.
No cenário internacional, essa lógica converge com as orientações da Organização Internacional do Trabalho (OIT/ILO), que reconhece o voluntariado como dimensão relevante da economia e do trabalho não remunerado, e com os avanços do projeto IFR4NPO, que busca harmonizar padrões globais de reporte financeiro para organizações sem fins lucrativos.
Nesse contexto, a governança do voluntariado amplia-se para além da formalização jurídica, incorporando o princípio do Duty of Care — o dever de cuidado e segurança com voluntários e beneficiários — e fortalecendo práticas de transparência, gestão de riscos e accountability perante financiadores e doadores internacionais.
Essa integração entre base legal, reconhecimento contábil e padrões internacionais de governança consolida o voluntariado não apenas como expressão de cidadania corporativa, mas como ativo estratégico, mensurável e gerido sob rigorosos parâmetros de conformidade, transparência e responsabilidade institucional.
Voluntariado como Estratégia Central
O voluntariado corporativo não deve ser tratado como atividade periférica ou complementar. Ele é ferramenta estratégica de:
- Engajamento interno
- Desenvolvimento de lideranças
- Reputação corporativa
- Geração de valor social
Ao migrar do volume ao valor, ampliamos sua potência transformadora e seu alinhamento aos desafios globais e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Nossas conclusões
Para o Ano Internacional do Voluntariado pelo Desenvolvimento Sustentável (AIV – 2026), este artigo é um convite à reflexão estratégica! Se o voluntariado corporativo pretende contribuir efetivamente para a Agenda 2030 e demais agendas globais promovendo solidariedade, inclusão e justiça social, precisamos avançar na forma como desenhamos, acompanhamos e mensuramos nossos programas. A pergunta permanece:
Como podemos medir melhor aquilo que realmente transforma e gera valor?
Artigo em Ingles:
From Volume to Value: Structuring Transformative Corporate Volunteering
Rethinking Corporate Volunteering in the International Year of Volunteering for Sustainable Development (2026)
For decades, corporate volunteering programs have been evaluated primarily through quantitative metrics: number of volunteers, hours contributed, and number of activities carried out. These indicators are relevant. They demonstrate mobilization, scale, and internal engagement. However, they are insufficient to reveal the true scope of corporate volunteering.
Measuring volume does not reveal transformation. It does not capture competency development, institutional strengthening of partner organizations, cultural change within companies, or real community impact. Measurement based exclusively on numbers tends to prioritize what is easy to record, but not necessarily what is strategic or structural.
The central question remains provocative:
Are we measuring what is easy to count — or what truly matters?
Shifting from volume to value requires a mindset change — from counting participation to understanding results, learning, and systemic transformation. It means moving from an activity-based logic to an impact-based logic.
The Pitfalls of Isolated Action Volunteering
One-off actions, disconnected from strategy and focused only on immediate delivery, tend to generate limited and unsustainable impact. These initiatives mobilize people for a day, produce photo records and hour reports, but rarely leave a structural legacy.
Without strategic alignment, active listening to civil society organizations, and continuity, actions become isolated events. They generate visibility, but not necessarily transformation. Often, they produce more operational effort than consistent social value.
This does not diminish the relevance of emergency mobilizations in contexts of tragedy, socio-environmental disasters, humanitarian crises, or pandemics — in such situations, rapid and punctual action is necessary and can save lives. The critical issue arises when the logic of exception becomes the rule, replacing a structured and continuous value-generation strategy.
Strategic corporate volunteering requires:
- Clear intentionality
• Alignment with corporate strategy and ESG agenda
• Structured medium- and long-term partnerships
• Defined objectives and a consistent theory of change
• Ongoing evaluation with qualitative and quantitative indicators
Sustainable programs do not choose a single beneficiary of value. They balance interests and build shared benefits for all stakeholders involved. Corporate volunteering becomes strategic and transformative when it simultaneously creates value for the company, the volunteer, the civil society organization, and the community.
Transformative Experiences
To generate real value, experiences must be intentionally designed for multiple audiences.
For volunteers, volunteering can be a space for socio-emotional development, empathy strengthening, systemic thinking, and leadership practice. When well structured, it becomes an applied learning environment capable of developing competencies transferable to the professional context.
For companies, volunteering is a strategic tool for strengthening organizational culture, increasing engagement, retaining talent, and developing leadership. It connects individual purpose to institutional purpose.
For civil society organizations, structured programs provide access to technical knowledge, relationship networks, management methodologies, and institutional capacity building. It is not merely about volunteer labor, but about skills transfer and organizational sustainability.
In this context, structured preparation of activities, follow-up during implementation, and post-experience reflection moments are not secondary operational steps. They are central mechanisms for learning, alignment, and impact consolidation. Qualified reflection transforms experience into development.
The Challenge of Impact Measurement
Measuring impact in continuous, recurring actions developed with strategic partners is one of the greatest contemporary challenges in corporate volunteering.
Impact goes beyond immediate deliverables. It involves:
- Institutional capacity development
• Strengthening of networks and ecosystems
• Internal leadership development
• Long-term sustainability of partner organizations
In Brazil, the CBVE (Brazilian Council for Corporate Volunteering) census indicates an average participation rate of approximately 23% of employees in corporate volunteering programs. BISC – Benchmarking of Corporate Social Investment records an average rate of 25% among monitored companies.
International data show a similar scenario. Research conducted by CECP – Chief Executives for Corporate Purpose indicates that around 25% of employees participate in corporate volunteering programs in analyzed U.S. companies. Studies by the Charities Aid Foundation (CAF), through the World Giving Index, show consistent growth in global volunteering in recent years, although with significant regional variations. Reports from Points of Light reinforce the expansion of skills-based volunteering as a strategic international trend.
Scale, therefore, is relevant. Mobilization is expressive. But the strategic challenge remains: how do we transform participation into sustainable and measurable impact?
We must evolve from hours-based reporting to models that integrate indicators of learning, institutional strengthening, and organizational change.
Governance, Validation, and Recognition Tools
Volunteer management in Brazil is grounded in solid legal and accounting foundations that provide institutional security and strategic legitimacy to programs. Law 9.608 establishes the unpaid nature of volunteering and the absence of an employment relationship, ensuring legal clarity for organizations and volunteers. This regulatory framework not only protects stakeholders but also structures initiative governance.
From an accounting perspective, ITG 2002 (R1/2015) requires that volunteer work be recognized at fair value, as if it represented an equivalent financial expenditure. This guideline is not merely technical: it validates volunteering as a measurable economic resource, incorporating it into financial statements and expanding its visibility as a component of private social investment.
Internationally, this logic aligns with International Labour Organization (ILO) guidelines, which recognize volunteering as a relevant dimension of the economy and unpaid work, as well as with the IFR4NPO project, which seeks to harmonize global financial reporting standards for nonprofit organizations.
In this context, volunteer governance expands beyond legal formalization, incorporating the principle of Duty of Care — ensuring the safety and well-being of volunteers and beneficiaries — and strengthening transparency, risk management, and accountability practices toward funders and international donors.
This integration between legal foundation, accounting recognition, and international governance standards consolidates volunteering not merely as an expression of corporate citizenship, but as a strategic, measurable asset managed under rigorous compliance, transparency, and institutional responsibility parameters.
Volunteering as a Core Strategy
Corporate volunteering should not be treated as a peripheral or complementary activity. It is a strategic tool for:
- Internal engagement
• Leadership development
• Corporate reputation
• Social value generation
By moving from volume to value, we expand its transformative power and its alignment with global challenges and the Sustainable Development Goals.
Our Conclusions
In the International Year of Volunteering for Sustainable Development (2026), this article is an invitation to strategic reflection. If corporate volunteering intends to effectively contribute to the 2030 Agenda and other global agendas by promoting solidarity, inclusion, and social justice, we must advance in how we design, monitor, and measure our programs.
The question remains:
How can we better measure what truly transforms and generates value?
References and Sources
BISC – Benchmarking of Corporate Social Investment
https://www.comunitas.org/bisc
CECP – Chief Executives for Corporate Purpose
https://cecp.co
Charities Aid Foundation (CAF) – World Giving Index
https://www.cafonline.org
Brazilian Council for Corporate Volunteering (CBVE)
https://www.cbve.org.br
IFR4NPO – International Financial Reporting for Non-Profit Organizations
https://www.ifr4npo.org
International Labour Organization (ILO)
https://www.ilo.org
ITG 2002 (R1/2015) – Nonprofit Entities (CFC)
https://www.cfc.org.br
Law No. 9.608 of February 18, 1998 (Brazilian Volunteering Law)
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9608.htm
Points of Light
https://www.pointsoflight.org
United Nations Volunteers (UNV)
https://www.unv.org
