Voluntariado e Futebol: o legado que continua além dos gramados / artigo
Voluntariado e Futebol: o legado que continua além dos gramados
Silvia Nacccache Junho de 2026
Quem viveu a Copa do Mundo de 2014 no Brasil provavelmente se lembra não apenas dos jogos, das seleções e da festa nas ruas, mas também da mobilização de milhares de voluntários que ajudaram a receber o mundo com hospitalidade, entusiasmo e um sorriso no rosto.
Para muitos brasileiros, aquela foi a primeira experiência em uma ação voluntária estruturada de grande porte. Foi uma oportunidade de conhecer pessoas de diferentes culturas, desenvolver novas habilidades, ampliar redes de relacionamento e descobrir o poder da participação cidadã. O legado daquela experiência permanece vivo na trajetória de muitos voluntários que seguiram atuando em causas sociais, eventos esportivos e iniciativas comunitárias.

Uma experiência que marcou minha trajetória
Falo também a partir da experiência de quem viveu essa jornada por dentro.
Em 2014, tive a oportunidade de atuar como voluntária da Copa do Mundo FIFA em São Paulo. Trabalhei na recepção de visitantes e delegações no aeroporto e também no estádio, acompanhando de perto a enorme operação necessária para receber pessoas de diferentes partes do mundo.
Foi uma experiência extremamente rica de convivência e aprendizado. Além do contato com visitantes de diversos países, tive a oportunidade de integrar uma equipe multicultural de voluntários, formada por pessoas com diferentes histórias, profissões, idades e trajetórias de vida, mas unidas pelo mesmo propósito de acolher bem e contribuir para o sucesso do evento.
Aprendi sobre colaboração, respeito às diferenças, trabalho em equipe e comunicação intercultural de uma forma que dificilmente seria possível em outros contextos. Mais do que participar de um grande evento esportivo, vivi uma experiência de cidadania global, que ampliou minha compreensão sobre o poder do voluntariado para aproximar pessoas e construir pontes entre culturas.
O que mais me marcou não foram apenas os jogos ou a dimensão do evento, mas a sensação de fazer parte de algo maior. Ver milhares de voluntários atuando com entusiasmo, compromisso e espírito de colaboração mostrou, na prática, a força que a participação cidadã pode ter quando colocada a serviço de um objetivo comum.
Mais de dez anos depois, continuo acreditando que aquele foi um dos exemplos mais inspiradores de mobilização voluntária que o Brasil já viveu. E talvez seja por isso que acompanho com tanto interesse os programas de voluntariado das Copas do Mundo atuais e futuras: porque sei, por experiência própria, que seu impacto vai muito além dos dias de competição.
Mais de uma década depois, é possível olhar para essa experiência como parte da primeira de três grandes ondas de mobilização voluntária vividas pelo país neste século. A primeira foi impulsionada pelos megaeventos esportivos, especialmente a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. A segunda emergiu da força da solidariedade diante das crises sociais, econômicas e sanitárias da última década, com destaque para a pandemia. E uma terceira onda começa a ganhar forma, impulsionada pela crescente valorização da participação cidadã e pela realização da Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027 no Brasil.

O maior programa de voluntariado esportivo do mundo está em campo
Enquanto o Brasil se prepara para sediar a Copa do Mundo Feminina em 2027, a FIFA concluiu um dos maiores processos de recrutamento de voluntários do planeta para a Copa do Mundo FIFA 2026, realizada nos Estados Unidos, Canadá e México.
Mais de 65 mil voluntários foram selecionados para atuar durante o torneio, que pela primeira vez contará com 48 seleções nacionais e será realizado simultaneamente em três países e 16 cidades-sede. O programa atraiu candidatos de diversas partes do mundo, reforçando o caráter global e multicultural do evento.

Para participar, os interessados precisaram integrar a Comunidade de Voluntários da FIFA, preencher uma candidatura online, realizar avaliações virtuais, participar das etapas de seleção e dinâmicas de grupo — e concluir uma jornada de capacitação que incluiu formação online, treinamentos presenciais e preparação específica para suas funções.
Os voluntários também passaram por processos de credenciamento, verificações de segurança e preparação operacional para atuar durante o torneio, que acontece entre 11 de junho e 19 de julho de 2026.
A FIFA buscou pessoas com perfil colaborativo, espírito de equipe, atitude proativa, interesse por diferentes culturas e capacidade de comunicação. O domínio do inglês foi um requisito importante, enquanto outros idiomas foram considerados diferenciais. No Canadá, o francês foi valorizado e, no México, o espanhol também foi considerado uma competência desejável.
Muito além dos estádios
Quando pensamos em voluntários da Copa do Mundo, é comum imaginar pessoas trabalhando dentro dos estádios. Mas a realidade é muito mais ampla.
Os voluntários da FIFA 2026 estão distribuídos em dezenas de espaços que fazem parte da experiência do torneio. Eles atuam nos estádios das partidas, nos centros de treinamento das seleções, nos aeroportos que recebem delegações e torcedores, nos hotéis oficiais, nos centros de mídia, nos espaços de hospitalidade, nos centros de credenciamento, nos sistemas de transporte e mobilidade urbana e também nos Fan Fests, que tradicionalmente recebem milhares de visitantes durante a competição.

Em muitos casos, os voluntários são o primeiro rosto que um visitante encontra ao chegar à cidade. São eles os responsáveis por orientar, acolher, informar e contribuir para que a experiência dos torcedores seja positiva e memorável. Tornam-se verdadeiros embaixadores da hospitalidade e da convivência entre povos e culturas.
Os voluntários também fazem parte do espetáculo
Quando assistimos às cerimônias de abertura e aos protocolos que antecedem uma partida da Copa do Mundo, vemos artistas, coreografias, bandeiras e símbolos que representam o espírito do torneio. O que muitas pessoas não percebem é que, por trás desses momentos memoráveis, há também a participação de centenas de voluntários.
Nas cerimônias realizadas no México, Canadá e Estados Unidos, muitos voluntários participaram desde os ensaios e preparativos até a execução das apresentações dentro dos estádios. Ao lado de artistas, produtores e equipes técnicas, eles ajudaram a transformar meses de planejamento em momentos assistidos por milhões de pessoas em todo o mundo.
Entre as funções desempenhadas estão a entrada em campo com as bandeiras oficiais das seleções, o transporte das bandeiras que acompanham a entrada dos jogadores, a apresentação dos logotipos do torneio e outros elementos visuais que fazem parte das cerimônias pré-jogo.
Para muitos participantes, esta é uma das experiências mais marcantes de todo o programa. Afinal, poucos têm a oportunidade de estar dentro do gramado de uma Copa do Mundo minutos antes do início da partida, sentindo a energia de um estádio lotado e contribuindo diretamente para um dos momentos mais emocionantes do evento.
A preparação para essas atividades exige comprometimento e precisão. Os voluntários participam de treinamentos específicos, ensaios obrigatórios e simulações realizadas tanto em áreas de preparação quanto dentro dos próprios estádios. Em dias de jogo, normalmente precisam chegar com várias horas de antecedência para os últimos ajustes e alinhamentos operacionais.
Essa experiência demonstra que o voluntariado em grandes eventos esportivos vai muito além do apoio logístico. Em muitos momentos, os voluntários tornam-se parte integrante do espetáculo, ajudando a construir a atmosfera de celebração, pertencimento e união entre povos que caracteriza uma Copa do Mundo.
As áreas de atuação dos voluntários
A estrutura do programa de voluntariado da FIFA contempla 23 áreas funcionais diferentes, oferecendo oportunidades para pessoas com perfis e habilidades variadas.
Entre as principais áreas de atuação estão: Atendimento e serviços aos espectadores; Operações de estádio; Hospitalidade; Credenciamento; Mídia e imprensa; Transporte e mobilidade; Apoio às equipes; Sustentabilidade e inclusão; Operações em aeroportos; Centros de treinamento; Logística e suporte operacional.
Mais do que executar tarefas operacionais, os voluntários ajudam a criar o ambiente humano, alegre, dinâmico que caracteriza os grandes eventos esportivos. São eles que transformam uma operação complexa em uma experiência acolhedora para milhões de pessoas.
O impacto dos megaeventos no engajamento voluntário
A experiência brasileira demonstra que o legado dos grandes eventos não se limita à infraestrutura, ao turismo ou à visibilidade internacional. Ele também se manifesta nas pessoas.
Segundo a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, realizada pelo Instituto Datafolha , 49% dos brasileiros concordam que os grandes eventos realizados na última década, como a Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos e os Jogos Paralímpicos, contribuíram para aumentar o engajamento dos brasileiros no trabalho voluntário.
Esse resultado confirma algo observado por organizações da sociedade civil, gestores de programas e pesquisadores: os megaeventos funcionam como uma poderosa porta de entrada para a participação cidadã.
Muitas pessoas que se voluntariaram pela primeira vez em 2014 ou 2016 descobriram novas formas de contribuir com suas comunidades, ampliaram sua compreensão sobre cidadania e seguiram participando de iniciativas sociais posteriormente. O voluntariado vivido durante um evento esportivo muitas vezes se transforma em um compromisso duradouro com a sociedade.
O Brasil já começa a olhar para 2027
A próxima grande oportunidade para fortalecer esse legado será a Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027.
Pela primeira vez, o Brasil sediará o principal torneio do futebol feminino mundial, recebendo atletas, delegações, profissionais de imprensa e torcedores de todos os continentes.

Embora o processo seletivo para voluntários ainda não tenha sido aberto, a previsão é que as inscrições comecem em setembro de 2026.
Os voluntários atuarão em oito cidades-sede brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Salvador, Recife e Fortaleza.
As oportunidades deverão abranger diversas áreas de atuação, incluindo atendimento e orientação aos torcedores, operações de estádio, logística, transporte, apoio às equipes, imprensa, hospitalidade, credenciamento, sustentabilidade, inclusão e acessibilidade.
Assim como aconteceu em 2014, a Copa do Mundo Feminina de 2027 poderá representar muito mais do que um evento esportivo. Será uma oportunidade para fortalecer a cultura do voluntariado, ampliar o engajamento cívico e inspirar uma nova geração de cidadãos a participar ativamente da construção de uma sociedade mais colaborativa e solidária.
Um legado que permanece
Os jogos terminam. Os campeões levantam a taça. Os estádios se esvaziam.
Mas os efeitos do voluntariado permanecem.
Permanecem nas competências desenvolvidas, nas amizades construídas, nos novos olhares sobre o mundo, na confiança adquirida e no desejo de continuar contribuindo para a sociedade.
Talvez por isso o legado mais valioso de uma Copa do Mundo não esteja apenas nos gramados ou nas arquibancadas. Ele está nas pessoas que decidem participar.
São elas que transformam um evento esportivo em uma experiência humana coletiva. São elas que mostram que hospitalidade, colaboração, solidariedade e compromisso também fazem parte do espetáculo.
São elas que nos lembram que, por trás de cada grande evento, existe uma rede extraordinária de cidadãos dispostos a doar tempo, talento e energia para construir algo que beneficia a todos.
“Acredito que as experiências de voluntariado nos grandes eventos esportivos sejam muito mais do que uma oportunidade de apoiar a realização de uma competição. Que sejam experiências de harmonia, de encontro entre nações e culturas, de promoção da paz, da generosidade, da gentileza, da solidariedade e do respeito. Que fortaleçam a cidadania tanto de quem acolhe quanto de quem é acolhido. É esse ambiente mais justo, inclusivo, pacífico e sustentável que desejo para minha neta Victoria e para todas as crianças que herdarão o mundo que estamos construindo hoje. E tenho a convicção de que o voluntariado é uma das forças capazes de transformar esse desejo em realidade.” — Silvia Naccache

